Brasil é o país que mais mata trans e travestis, segundo a Antra

Brasil é o país que mais mata trans e travestis, segundo a Antra - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

País se mantém no topo do ranking internacional de assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025, conforme dossiê da Antra
Compartilhar

O Brasil se mantém no topo do ranking de países que mais matam pessoas transexuais e travestis no mundo. Apenas em 2025, foram contabilizados 80 assassinatos apenas em 2025. Os dados fazem parte da última edição do dossiê feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), lançado nesta segunda-feira (26).

Em Santa Catarina foi incluída uma morte. Assim, o estado ficou em 21º, assumindo uma posição menos violenta em relação a 2024, quando foram contabilizadas três mortes.

O dossiê lançado pela Antra foi produzido com apoio de 30 outras entidades, movimentos, empresas e projetos. Entre eles, destaque para a associação catarinense Acontece Arte e Política LGBTI+, que tem forte atuação em Florianópolis.

“Persistir em falar todos os dias sobre a violência contra a comunidade, na produção destes dados, na denúncia qualificada e na incidência pública constitui, hoje, uma das respostas mais eficazes à transfobia estrutural e à cisgeneridade enquanto regime de controle e poder que organiza a negação de direitos e a desumanização de pessoas trans como agenda política”, disse Bruna Benevides, presidenta da Antra.

O resultado representa queda de cerca de 34% em relação ao ano anterior, que registrou 122 crimes desse tipo, porém não tira o país do topo do ranking, posição que ocupa há quase 18 anos.

Para a presidenta da Antra, Bruna Benevides, os dados são resultado de um sistema inteiro que naturaliza a opressão contra pessoas trans.

“Não são mortes isoladas, revelam uma população exposta à violência extrema desde muito cedo, atravessada por exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo.”

Ranking de mortes por estado

No topo do ranking vergonhoso das mortes de pessoas trans e travestis em 2025, Ceará (CE) e Minas Gerais (MG) lideram com o maior número de ocorrências, registrando 8 casos cada. Eles são seguidos de perto por Bahia (BA) e Pernambuco (PE), ambos com 7 mortes.

Na faixa intermediária, os estados de Goiás (GO), Maranhão (MA) e Pará (PA) apresentam 5 registros cada, enquanto Paraíba (PB), Paraná (PR), Rio Grande do Norte (RN) e São Paulo (SP) contabilizam 4 ocorrências cada um.

Com números menores, aparecem Mato Grosso (MT) e Rio de Janeiro (RJ) com 3 casos cada, seguidos por Alagoas (AL), Distrito Federal (DF), Espírito Santo (ES) e Mato Grosso do Sul (MS), todos com 2 registros.

Os estados do Amazonas (AM), Amapá (AP), Rio Grande do Sul (RS), Santa Catarina (SC) e Sergipe (SE) registraram 1 morte cada.

Por fim, a tabela aponta cinco estados em que não foram encontrados registros no período: Acre (AC), Piauí (PI), Rondônia (RO), Roraima (RR) e Tocantins (TO), todos com zero casos.

Perfil das pessoas trans e travestis mortas em 2025

O dossiê da Antra também traçou um perfil das vítimas em 2025, levando em consideração dados como idade, classe e contexto social, raça, gênero e detalhes comuns das violências.

A faixa etária dos 18 aos 29 anos concentra o maior volume de casos, com 31 assassinatos (54% do total). Além disso, 77% das vítimas assassinadas em 2025 tinham menos de 35 anos.

Apesar da ausência de dados, nota-se no documento que a transfobia afeta sobretudo pessoas empobrecidas, em contexto de alta vulnerabilidade social, que utilizam o trabalho sexual como fonte primária ou secundária de renda.

Em 2025, dentre os 57 casos em que foi possível determinar a raça/cor das vítimas, observou-se que pelo menos 40 casos, 70% das vítimas, eram pessoas trans negras (pretas e pardas). Houve ainda dois casos de indígenas trans assassinadas, e pessoas brancas somaram 15 casos (26%).

Entre as vítimas de assassinatos localizadas e consideradas nesta pesquisa, 77 eram travestis/mulheres trans, explicitando que a violência de gênero, a motivação, assim como a própria escolha da vítima têm relação direta com a identidade de gênero (feminina) expressa pelas vítimas.

Travestis e mulheres trans representam 97% dos casos, com 1.221 assassinatos, nos últimos nove anos contabilizados nesta pesquisa.

Também foram encontrados 3 registros de homens trans e pessoas transmasculinas assassinados. Entre os anos de 2017 e 2025, foi identificado um total de 40 casos de assassinatos de homens trans e pessoas transmasculinas mapeados pela Antra, que representam 3% da amostra total para esse período.

A partir desses números, a Antra aponta que uma pessoa travesti ou mulher trans tem até 30 vezes mais chances de ser assassinada, sobretudo no espaço público que uma pessoa transmasculina ou não binária.

Tiros e facas são as principais ferramentas para matar pessoas trans e travestis

A análise da Antra mostra que o uso da arma de fogo ainda é o principal instrumento da mote de pessoas trans e travestis no Brasil. Em 2025, o uso de arma de fogo foi responsável por 42,5% dos casos.

Em seguida, aparecem as armas brancas e objetos contundentes, presentes em 22,5% dos registros, caracterizados por facadas, pauladas, marteladas, garrafadas e degolamentos, evidenciando violência direta e prolongada.

Situações de espancamento e tortura correspondem a 12,5% dos casos, marcadas por agressões extremas, muitas vezes coletivas, com sinais de amarração e sofrimento intenso.

As mortes por asfixia e estrangulamento somam 7,5%, enquanto os casos de carbonização e queimaduras, embora menos frequentes, representam 5% e expõem níveis extremos de crueldade. A violência sexual aparece em 2,5% dos registros, combinada a espancamentos e mutilações.

Atropelamentos intencionais também correspondem a 2,5%, assim como os casos sem informação ou classificados como outros.

Já as ocorrências de decapitação e desmembramento e de morte presumida ou desaparecimento, com 1,25% cada, revelam contextos de brutalidade máxima.

As mortes ocorreram, em sua maioria, em espaços públicos, que concentraram 50 registros, correspondendo a 62,5% do total.

Os espaços privados concentram 23 ocorrências, o que representa 28,75% dos casos, incluindo residências das próprias vítimas, motéis, unidades prisionais masculinas e outros ambientes de acesso restrito. Por fim, os registros classificados como “sem informação” sobre o local somam 7 casos (8,75%).

O período noturno reúne o maior número de casos, com 29 registros, correspondendo a 36,25% do total, seguido pela madrugada, com 20 ocorrências (25%).

A Antra ainda aponta que 15 registros (18,75%) não possuem horário, o que, de acordo com a entidade, revela “lacunas importantes na documentação e na investigação dessas mortes. Essa ausência de dados temporais compromete análises mais precisas e reflete a baixa priorização institucional dada aos crimes contra pessoas trans”.

Já os períodos matutino e vespertino concentram, respectivamente, 9 casos (11,25%) e 7 casos (8,75%).

Em 53 registros, não foi possível identificar o autor do crime ou estabelecer qualquer vínculo entre a vítima e a autoria do crime. Entre os casos em que a relação foi identificada, destaca-se a categoria “Clientes”, com 10 ocorrências.

As relações afetivas aparecem em 6 casos, envolvendo namorados/as, ex-namorados ou vínculos familiares ampliados, como cunhados. Já os vínculos de proximidade social, como vizinhos, conhecidos, irmãos ou relações extraconjugais, somam 5 registros.

Por fim, aparecem as categorias institucional ou outros, com 3 casos envolvendo detentos ou situações de internato, e os outros registros residuais, também com 3 casos – um deles onde as suspeitas eram trans.

75 tentativas de homicídios foram registradas em 2025

A Antra apontou que, em 2025, foram registrados em nossas buscas pelo menos 75 homicídios tentados, aumento de 32% em relação a 2024, durante a realização da pesquisa, utilizando a mesma metodologia dos assassinatos, todos contra travestis e mulheres trans.

Em 2024, foram 57 casos. Em 2023 foram 69 tentativas de assassinato; em 2022 foram 84 casos; em 2021 sobreviveram 79 vítimas; no ano de 2020 haviam sido 77 tentativas; 50 em 2019; 72 em 2018; e 58 em 2017.

A análise aponta que as tentativas de homicídios de pessoas trans e travestis voltaram a crescer, retomando patamares de 2020 e 2021.

Pressão por políticas públicas

Além do diagnóstico, o dossiê apresenta diversas recomendações dirigidas ao poder público, ao sistema de justiça, à segurança pública e às instituições de direitos humanos, buscando diálogo e propostas concretas para romper com a lógica de impunidade e escassez que marca a realidade das pessoas trans no Brasil.

Bruna Benevides, também autora do dossiê, acredita que o relatório da Antra “constrange o Estado”, informa a sociedade e impede o silêncio.

“É preciso reconhecer que as políticas de proteção às mulheres precisam estar acessíveis e disponíveis para as mulheres trans por exemplo. Pensar sobre tornar acessível o que existe e implementar o que ainda não foi devidamente alcançado. Há muita produção, inclusive de dados, falta ação por parte de tomadores de decisão”, completou.

A nona edição do Dossiê: Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras será apresentada em cerimônia no auditório do Ministério dos Direitos Humanos, com entrega oficial a representantes do governo federal.

Sobre o autor


Compartilhar