Florianópolis tem 30 dias para publicar Plano de Manejo do Monumento Natural Municipal da Galheta
JustiçaMeio Ambiente

Justiça dá 30 dias para Florianópolis publicar Plano de Manejo da Galheta

Ministério Público alerta para risco ambiental e insegurança jurídica por ausência do plano de manejo para a área da Praia da Galheta

Compartilhar

O futuro da Praia da Galheta, área símbolo do naturismo e frequentada historicamente pela comunidade LGBTQIA+ em Florianópolis, voltou ao centro do debate ambiental e jurídico. A Justiça determinou que a Prefeitura da Capital publique, em até 30 dias, a portaria oficial de aprovação do Plano de Manejo do Monumento Natural Municipal da Galheta.

Florianópolis tem 30 dias para publicar Plano de Manejo do Monumento Natural Municipal da Galheta
Florianópolis tem 30 dias para publicar Plano de Manejo do Monumento Natural Municipal da Galheta - Foto: MPSC / Divulgação / Floripa.LGBT

O Plano de Manejo, essencial para a proteção da área, existe desde 2016, mas nunca foi formalizado — o que gera insegurança jurídica e ameaça a preservação do espaço. A decisão judicial suspende qualquer nova concessão ou autorização comercial até que a situação seja regularizada. Em caso de descumprimento dos prazos, a Prefeitura está sujeita a multa diária de R$ 5 mil.

O Floripa.LGBT entrou em contato com a Prefeitura de Florianópolis em busca de um posicionamento sobre a notificação do MPSC acerca da cobrança do Plano de Manejo para a Galheta. Por meio da assessoria, a Prefeitura de Florianópolis informou que “vai se inteirar sobre a decisão do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), bem como avaliar seus efeitos, para que possa tomar as providências cabíveis.”

A decisão judicial é resultado de uma ação do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), que reforça: sem o Plano de Manejo oficialmente aprovado, o município não pode conceder licenças para atividades comerciais ou concessões públicas na Galheta. Até a implementação efetiva do documento, a prefeitura também deverá destacar servidores com poder de fiscalização para o local.

Isso pode até mesmo afetar o comércio de temporada de verão em algumas das praias mais movimentadas em Florianópolis, impedindo, por exemplo, a concessão de alvarás tanto de ambulantes quanto de estabelecimentos fixos entre a região da Praia Mole e a Barra da Lagoa.

A ação foi ajuizada pela 22ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital, considerando que a adoção e o cumprimento do plano são fundamentais para garantir a preservação da biodiversidade, o uso sustentável dos recursos naturais e a manutenção da integridade ecológica da área – assegurando, assim, um ambiente equilibrado e saudável para as futuras gerações.

Ministério Público de Santa Catarina (MPSC)
Decisão judicial que exige publicação do Plano de Manejo da Galheta é fruto de ação foi ajuizada pela 22ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital – Foto Divulgação/Floripa.LGBT

Com 251 hectares de áreas preservadas entre a Praia Mole e a Barra da Lagoa, a Galheta abriga ecossistemas frágeis, como florestas, dunas, rios e costões. Ou seja, o Monumento Natural Municipal da Galheta equivale a cerca de 360 campos de futebol.

O plano de manejo deveria definir regras claras para o uso sustentável do espaço e ações para sua preservação. Mesmo disponibilizado no site da prefeitura, o documento segue sem validade jurídica por falta da publicação da portaria.

O que é o Plano de Manejo?

O plano de manejo é um instrumento técnico fundamental para a gestão de Unidades de Conservação, como o MONA Galheta. Ele define o zoneamento da área, as normas de uso, as ações de manejo dos recursos naturais e as estruturas necessárias para a gestão da unidade. O plano deve ser elaborado com base nos objetivos da unidade de conservação e busca promover a integração da área com a comunidade local.

Ministério Público pressiona por plano de manejo em outras áreas de Florianópolis

A ausência do plano preocupa ambientalistas e frequentadores da praia. Sem o zoneamento da área e a definição da chamada Zona de Amortecimento — região no entorno da unidade de conservação onde as atividades humanas são controladas — o local fica vulnerável à degradação ambiental e ao avanço de interesses econômicos.

O impasse na regulamentação do Plano de Manejo tem causado contradições entre os órgãos oficiais, que proíbem práticas consideradas históricas por frequentadores
O impasse na regulamentação do Plano de Manejo tem causado contradições entre os órgãos oficiais, que proíbem práticas consideradas históricas por frequentadores – Reprodução/Floripa.LGBT

Além da Galheta, outras 10 unidades de conservação municipais em Florianópolis também aguardam a publicação oficial de seus planos de manejo. Segundo o MPSC, desde 2017 o município promete, sem sucesso, regulamentar a gestão desses espaços.

A promotoria já ajuizou cinco ações semelhantes, buscando garantir a preservação de áreas como a Lagoinha do Leste, o Parque da Costeira e o Parque das Dunas do Santinho.

Praticantes de naturismo e comunidade LGBTQIA+ também pressionam pelo plano de manejo

Mais do que uma área ambiental estratégica, a Galheta tem relevância social e cultural. Considerada o berço do naturismo no Brasil e tradicional ponto de encontro da comunidade LGBTQIA+, a praia enfrenta ainda disputas políticas e tentativas recentes de limitar o nudismo no local — incluindo projetos de lei que tramitam na Câmara Municipal e mobilizam ativistas e frequentadores.

O impasse na regulamentação do Plano de Manejo agrava essa situação. Sem normas claras para o uso da área, o local segue exposto a interpretações conflitantes da legislação, como mostrou o Floripa.LGBT em reportagens recentes sobre o debate em torno do naturismo, os riscos de violência contra frequentadores (denunciados com exclusividade) e as iniciativas de preservação.

Frequentadores do espaço agrupados na Associação Amigos da Galheta (AGAL) participam há anos da discussão sobre a construção do Plano de Manejo para a Galheta.

A decisão da Justiça pode representar um passo importante para garantir não só a proteção ambiental da Galheta, mas também a segurança e o respeito aos direitos das pessoas que frequentam a praia — especialmente aquelas da comunidade LGBTQIA+, que veem na Galheta um espaço de liberdade e acolhimento há décadas.

Monumento Natural Municipal da Galheta

O Monumento Natural Municipal da Galheta, criado em 1990 e recategorizado em 2016, protege 251 hectares de floresta densa e restinga em Florianópolis. Foi durante este processo que, em 2016, uma nova legislação reclassificou o espaço e o nudismo deixou de ser previsto na legislação, gerando controversas sobre a permissão.

A lei municipal nº 10.100/2016 não prevê o naturismo, mas também não proíbe de forma direta. Sem um regulamento específico, a prática entra em conflito, gerando casos de violência, perseguições e homofobia.

Localizado entre a Praia Mole e a Barra da Lagoa, é marcado pela diversidade cultural em meio à rica diversidade natural, formada por rios, cachoeiras, lagoas, lagunas, praias, costões rochosos, dunas, manguezais e exuberantes florestas, que ofertam relevantes serviços ecossistêmicos, como a regulação climática, a proteção dos mananciais de água e dos aquíferos subterrâneos, bem como a contenção de processos erosivos e a minimização de impactos advindos de eventos meteorológicos extremos.


Compartilhar