As empresárias que administram o Madalena Bar anunciou, neste domingo (3), que fechará as portas após quase cinco anos como referência no Centro Leste de Florianópolis. Uma das sócias do local, Rose Bär, contou como o lugar pensado para mulheres e pessoas LGBTI+ centralizou o movimento na região e porque o estabelecimento fechou.


Desde 2008, Rose conta que trabalhou desde “faz tudo” até gerente e produtora de casas conhecidas no Centro de Florianópolis, como o Jivago, a Blues Velvet e a Treze, que já fechou.
O sonho de um bar próprio surgiu quando ainda trabalhava nas casas noturnas e, após sair da Treze, chamou Anna O’Sfair como sócia. Juntas, as empresárias pensaram no nome Madalena.
“Um nome que tivesse essa identidade de potência e tudo mais, até porque Maria Madalena foi injustiçada no mundo cristão. Mas não é esse o principal motivo, a gente queria um nome que tivesse uma força e que representasse a maioria das mulheres”, fala Rose.
Da grade as paredes, Madalena Bar foi pensado para mulheres e pessoas LGBTI+
Junto com a arquiteta Emanuella Wojcikiewicz, as sócias pensaram os detalhes para construir o Madalena Bar da maneira como o estabelecimento é conhecido hoje. O objetivo, segundo Rose, era que a identidade visual e a estética fossem pensadas para mulheres e pessoas LGBTI+.
O lilás das paredes remete ao feminismo e os neons em rosa e azul fazem referência à série Twin Peaks, enquanto o azul dos azulejos é uma homenagem ao filme “A Liberdade é Azul”. Rose explica que a fachada estampa palavras e nomes de artistas e personalidades admiradas pelas sócias.
“Tem bastante referência de coisas que a gente gosta, de filmes e arte de maneira geral. Então tudo isso foi falado antes, e se traduziu no que se transformou o Madalena”.
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Além da estética, outra prioridade era clara: mulheres na frente e atrás do balcão. A representatividade era uma necessidade percebida pela empresária, que priorizou mulheres e pessoas LGBTI+ como bartenders, DJs e produtores.
“Nesses cinco anos, a gente pode dizer que pelo menos 70% do nosso staff sempre foi composto por mulheres. E na maioria mulheres também LGBTQIA+. A gente tem bastante orgulho disso, inclusive”, fala Rose.
O Madalena explodiu a Victor Meirelles
Era 20h de 11 de outubro de 2018 e havia poucas pessoas na rua Victor Meirelles, quando foi inaugurado o Madalena Bar. A apreensão, lembra Rose, começou a tomar conta. As empresárias tinham programado uma inauguração dividida em três dias.
“No início normal, né? As pessoas saem tarde. Então sei lá, era 20h30, por aí… e a gente: ‘meu Deus, será que vai vir alguém? Será que vai ser um fracasso? Será que não vai dar ninguém?’.”
De repente, “boom”.
“De repente explodiu a rua. Encheu o bar e encheu de tal maneira que os amigos tinham que entrar no bar para lavar copos. Tinha copo na calçada, foi uma loucura. Os três dias foram uma loucura”.
Os anos após a inauguração foram seguidos por outros momentos marcantes, como o Carnaval de 2019. Segundo Rose, outros três bares que abriram em momentos próximos ao do Madalena se reuniram junto com o bar em uma parceria para tocar a festa por três dias.
“Foi um carnaval imenso. Foram três dias de Carnaval que a gente fez na rua e foi estrondoso, deu milhares de pessoas na [rua] Victor Meirelles, ficou lotado de uma maneira surreal”, lembra.
Além de DJs e festas memoráveis, Rose lembra que o Madalena Bar também foi palco da artista Letrux, que veio com a banda em um domingo da temporada de verão.
“A rua virou um evento dentro do Madá. Foi incrível. Ela deixou um autógrafo na parede do bar, ela atendeu todo mundo. Ela foi maravilhosa”.
Pandemia foi marcada por apoio e desafios
A rua, que em 2020 já era movimentada independentemente do funcionamento do Madalena Bar, causava problemas para o estabelecimento quando enchia.
A empresária explica que as sócias eram cobradas pelos problemas que aconteciam na rua, mesmo tendo o próprio espaço interno. Segundo ela, a associação gerou muitas reuniões com autoridades.
Rose conta que, com a chegada da pandemia, o Madalena Bar ficou fechado por um longo período. Entre fechamentos e reaberturas, se passou um ano e um mês.
Na segunda vez que reabriram, após a chegada da vacina e o anúncio de que bares e restaurantes poderiam voltar a funcionar, o estabelecimento passou a cobrar o comprovante de vacinação contra a Covid-19. Na época, o local recebia de 25 a 30 pessoas que eram atendidas sentadas, e precisavam comprovar a imunização.
Para obter lucros mesmo com o público reduzido, o Madalena Bar criou produtos colecionáveis e vendeu drinks engarrafados durante a pandemia. O apoio das pessoas, que esgotavam rapidamente os produtos, foi marcante, disse Rose.
A empresária lembra de quando recebiam fiscalizações diariamente. “Eu lembro de uma vez em que a Vigilância Sanitária esteve lá. Foram nos dois ambientes e parabenizaram a gente pela organização e o cuidado que a gente estava tendo naquele momento. Isso me marcou bastante também, foi muito gratificante ouvir que a gente estava fazendo o correto”.
“Comércios noturnos ainda são marginalizados pelas autoridades”, diz Rose do Madalena Bar
A empresária citou um dois motivos para o fechamento do bar. Segundo ela, mesmo com subsídios do governo federal liberados durante a pandemia, os empréstimos pesaram nas finanças do Madalena.
No entanto, Rose destacou a dificuldade de se ter um comércio noturno em Florianópolis. A empresária lembrou que, além do que é público, negócios também promovem a cultura na Ilha.
“Comércios noturnos ainda são marginalizados pelas autoridades. Falta apoio e incentivo por parte deles [poder público]. Percebo que eles estão apoiando muitos e muitos eventos na rua, coisas culturais e tudo mais, mas a noite também é cultura”
Rose ressaltou que negócios noturnos acolhem trabalhadores que não se encaixam na norma social, como as pessoas LGBTI+.
“Acho que falta esse olhar do poder público para entender o quanto a importância que a gente tem, que os bares, os bares noturnos têm para a cultura, para o turismo, inclusão e equidade de público de uma cidade. Olha quantos artistas drags estão reavivando os espaços, tendo espaço novamente na cidade”.
Madalena Bar anuncia programação de despedida
Para celebrar os quase cinco anos de funcionamento, as empresárias que comandam o Madá anunciaram uma série de festas para que o público possa se despedir do bar icônico da Victor Meirelles.
As festas começam nesta quarta-feira e seguem até o próximo sábado (9). Confira como será cada uma das quatro festas anunciadas pelo Madalena Bar:
- Quarta-feira (6)
DANCE FEVER
Disco, dance music, eletro, pop
DJs: @rosebar07 & @st__kevin
Entrada: free até às 23h – R$10 após.
- Quinta-feira (7)
IT’S BRITNEY BITCH!
Pop dos 90s aos dias atuais e muita Britney
DJs: @annaosfair & @dj_catarina_
Entrada: R$30 convertidos em consumo ou R$10 de ingresso.
- Sexta-feira (8)
SIGA BEM CAMINHONEIRA
||Hinos Sapatônicos, pop divas, brasilidades, funk||
DJs: @pamelazuda & @annaosfair
Entrada: R$10 até às 22h – R$15 após.
- Sábado (9)
BORN THIS WAY
||Hinos LGBTQIA+ do Brasil e do mundo, funks LGBTs||
DJs: @lirouskyo, @annaosfair & @rosebar07
Entrada: R$30 convertidos em consumo ou R$10 de ingresso.