Kendall Jenner encerrou o show da Schiaparelli na Semana de Moda de Paris - Fotos: Schiaparelli / Divulgação
Em meio a uma dança das cadeiras de diretores criativos sedentos por estreias de destaque, a Semana de Moda de Paris, que encerrou na última terça-feira (7), foi dividida entre grifes que buscaram resgatar públicos mais tradicionais das marcas e aquelas que ainda demonstram segurança para se posicionar – mesmo que, por vezes, não intencionalmente – de maneira inovadora e alinhada com o que acontece na atualidade, e não com o que já foi feito no século passado.
Kendall Jenner, do clã das Kardashians, vive o auge do que seu berço de ouro pôde proporcionar e encerrou o show da ‘Schiaparelli’ com os mamilos aparentes em um vestido preto com transparência, um dos designs ousados e elegantes desenhados por Daniel Roseberry.
Nas redes sociais, é claro, os comentários giram em torno da necessidade dos seios à mostra, mesmo que ninguém saiba apontar exatamente qual é o problema deles assim estarem.

Com mais ousadia, o desfile da ‘Mugler’ na Semana de Moda de Paris trouxe os mamilos femininos não apenas com naturalidade, mas, em alguns momentos, até como destaque. Um dos vestidos estava preso apenas pelos piercings nos seios da modelo. Se ficou bonito ou usual? Não sei se era a intenção.
O uso de nudez em passarelas, inclusive durante a Semana de Moda de Paris, não é novidade, mas, em meio à atual onda de conservadorismo é admirável reconhecer, em um ambiente tão elitizado quanto o da alta moda, movimentos que ainda desafiam o senso estético comum em benefício da mensagem.

A coleção da Jean Paul Gaultier, assinada pelo recém-contratado Duran Lantink, foi além. Mesmo para uma marca conhecida pela irreverência (como esquecer o espartilho cônico imortalizado por Madonna?), nesta coleção a ‘maison’ abandona totalmente o compromisso com a beleza, entregando modelos femininas vestidas com macacões que emulam homens nus, deixando a desigualdade entre corpos literalmente estampada para todos verem.

E, falando em estampa: para além de mamilos também expostos em alguns looks, a ‘Vetements’ foi mais direta na mensagem. A camiseta estampada contra o nazismo durante a Semana de Moda de Paris é uma clara resposta à camiseta lançada pelo rapper Kanye West em fevereiro deste ano, que trazia uma suástica preta na frente e foi vendida por US$ 20 (R$ 115) no site oficial da marca do ex-artista, que hoje vive à sombra do próprio sucesso.
Em contrapartida, outras coleções reforçaram papéis de gênero e vão de encontro à tendência das ‘tradwifes’, mulheres que optam por um estilo de vida inspirado nos anos 50, dedicando-se ao lar, ao marido e aos filhos, abandonando carreiras profissionais para focar no papel de dona de casa. É o caso da Giambattista Valli, que parece ter desfilado o figurino de uma série de época.

Enquanto alguns reforçam o estereótipo, Miuccia Prada trouxe para o desfile da Miu Miu, uma reflexão sobre o trabalho feminino, e como as tarefas domésticas podem atrapalhar a inserção de mulheres no mercado de trabalho.
Para isso ela nos propõe algo parecido com o que fez na Prada durante a Semana de Moda de Milão, nos convidando a ver beleza em peças do cotidiano, como uniformes de trabalho e aventais, aqui reimaginados de forma, no mínimo, visionária, reforçando a marca como um território de experimentação nada superficial.

Valentino fala de resistência e esperança na Semana de Moda de Paris
Se houvesse a necessidade de escolher apenas um desfile para simbolizar a energia política desta Semana de Moda de Paris, seria o da Valentino.

O show teve início com uma narração de Pamela Anderson: uma carta escrita em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, pelo cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini, na qual ele expressa seu fascínio pelos vagalumes que continuavam a brilhar mesmo nas noites mais escuras sob o regime totalitário na Itália. Um lembrete de que é necessário revisitar a história para enxergar o futuro e de que a moda também faz parte disso.