Hailey Bieber entendeu que moda fitness é um dos símbolos do maior artigo de luxo da atualidade - Foto: Divulgação/Floripa.LGBT
O luxo muda de forma. Nas antigas cortes europeias, ele era feito de excessos — tecidos pesados, joias em camadas, banquetes intermináveis. Ser nobre era ser exuberante: quanto mais dourado, melhor. O luxo era público, visível, espalhafatoso. Com o tempo, especialmente após a Revolução Industrial, o sentido de riqueza começou a se refinar.
A ostentação passou a soar vulgar. Mostrar demais virou sinônimo de falta de classe. Surgiu então uma nova distinção: o luxo silencioso, o famoso ‘quiet luxury’ — medido pela discrição, pela qualidade do que só alguns reconhecem, e não pela quantidade do que todos veem.

Essa virada representou uma mudança profunda na forma como a elite se comunica com o mundo. O rico deixou de gritar a própria riqueza; passou a sussurrar. No lugar dos logotipos gigantes, vieram os tecidos impecáveis, o corte perfeito, a marca que só quem entende sabe identificar. Era o luxo que dispensava explicações — porque quem precisa explicar, já perdeu o jogo.
Mas o ‘quiet luxury’ também se transformou. O luxo do século XXI já não mora nas vitrines das grandes avenidas, e sim nas rotinas de quem parece não ter pressa. O novo símbolo de poder é o tempo livre — o privilégio de não precisar trabalhar. Cuidar de si, descansar, meditar, comer bem — tudo isso virou demonstração de status.

E assim, a moda fitness se consolida como o novo uniforme da elite. As roupas de academia tornaram-se os equivalentes modernos do terno de alfaiataria — não porque são caras, mas porque representam um estilo de vida que poucos podem sustentar.
A mulher (ou o homem) que pode passar o dia entre a aula de ioga e o café saudável, do pilates ao brunch sem hora marcada, mostra, sem dizer nada, que vive em outro ritmo.
Esse novo luxo é silencioso, mas profundamente performático. Disfarça-se de simplicidade, quando na verdade é o mais exclusivo dos privilégios: o de ter tempo para se cuidar. E, se for possível carregar uma Hermès combinando com sua moda fitness enquanto faz isso, melhor ainda — uma coisa não exclui a outra.

Se o corpo se tornou vitrine de tempo e disciplina, a comida virou o palco dessa nova ostentação. Comer bem, hoje, é uma forma de exibir poder — mas um poder sutil, que se expressa em escolhas. O prato bonito, colorido e orgânico é quase uma peça de moda: preparado para ser mostrado, fotografado e, às vezes, deixado de lado depois da foto perfeita.
O desperdício, nesse contexto, vira gesto simbólico. Jogar fora o que é caro é, silenciosamente, dizer “posso me dar a esse luxo”. Não à toa, grifes como a Prada abriram cafés próprios, transformando o simples ato de tomar um espresso em ritual de estilo e pertencimento.
A comida, antes necessidade, tornou-se acessório de imagem. Campanhas de moda exploram esse novo fetiche visual, misturando o apetite com o desejo de consumo. Em uma das imagens mais comentadas dos últimos tempos, Hailey Bieber aparece derrubando comida no chão em campanha para a Fila — uma provocação que expõe, sem pudor, o quanto o desperdício pode ser estetizado quando carrega o selo do luxo. Nesse cenário, o alimento deixa de nutrir corpos para alimentar narrativas de exclusividade.

O luxo, portanto, continua mudando, mas mantém uma constante: sempre foi sobre diferenciação. Hoje, o que separa quem “pode” de quem “não pode” não é mais o diamante, e sim a liberdade. O luxo não é o que se possui, e sim o que se pode desperdiçar. O corpo virou vitrine, o bem-estar virou marca, e a moda fitness, paradoxalmente, a forma mais sofisticada de dizer: eu tenho o que mais falta ao mundo — tempo.