Hailey Bieber entendeu que moda fitness é um dos símbolos do maior artigo de luxo da atualidade

Hailey Bieber entendeu que moda fitness é um dos símbolos do maior artigo de luxo da atualidade - Foto: Divulgação/Floripa.LGBT

Marcas e blogueiras vem apostando na moda fitness como forma de exibir um estilo de vida inalcançável
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O luxo muda de forma. Nas antigas cortes europeias, ele era feito de excessos — tecidos pesados, joias em camadas, banquetes intermináveis. Ser nobre era ser exuberante: quanto mais dourado, melhor. O luxo era público, visível, espalhafatoso. Com o tempo, especialmente após a Revolução Industrial, o sentido de riqueza começou a se refinar.

A ostentação passou a soar vulgar. Mostrar demais virou sinônimo de falta de classe. Surgiu então uma nova distinção: o luxo silencioso, o famoso ‘quiet luxury’ — medido pela discrição, pela qualidade do que só alguns reconhecem, e não pela quantidade do que todos veem.

Rainha Elizabeth, pintada por George Gower
Rainha Elizabeth, pintada por George Gower – Foto: Reprodução

Essa virada representou uma mudança profunda na forma como a elite se comunica com o mundo. O rico deixou de gritar a própria riqueza; passou a sussurrar. No lugar dos logotipos gigantes, vieram os tecidos impecáveis, o corte perfeito, a marca que só quem entende sabe identificar. Era o luxo que dispensava explicações — porque quem precisa explicar, já perdeu o jogo.

Mas o ‘quiet luxury’ também se transformou. O luxo do século XXI já não mora nas vitrines das grandes avenidas, e sim nas rotinas de quem parece não ter pressa. O novo símbolo de poder é o tempo livre — o privilégio de não precisar trabalhar. Cuidar de si, descansar, meditar, comer bem — tudo isso virou demonstração de status.

Roupas de academia são equivalentes aos terno de alfaiataria, porque representam um estilo de vida
Roupas de academia são equivalentes aos terno de alfaiataria, porque representam um estilo de vida – Foto: Divulgação/Floripa.LGBT

E assim, a moda fitness se consolida como o novo uniforme da elite. As roupas de academia tornaram-se os equivalentes modernos do terno de alfaiataria — não porque são caras, mas porque representam um estilo de vida que poucos podem sustentar.

A mulher (ou o homem) que pode passar o dia entre a aula de ioga e o café saudável, do pilates ao brunch sem hora marcada, mostra, sem dizer nada, que vive em outro ritmo.

Esse novo luxo é silencioso, mas profundamente performático. Disfarça-se de simplicidade, quando na verdade é o mais exclusivo dos privilégios: o de ter tempo para se cuidar. E, se for possível carregar uma Hermès combinando com sua moda fitness enquanto faz isso, melhor ainda — uma coisa não exclui a outra.

Comida é luxo. E a Prada entendeu isso
Comida é luxo. E a Prada entendeu isso – Foto: Divulgação/Floripa.LGBT

Se o corpo se tornou vitrine de tempo e disciplina, a comida virou o palco dessa nova ostentação. Comer bem, hoje, é uma forma de exibir poder — mas um poder sutil, que se expressa em escolhas. O prato bonito, colorido e orgânico é quase uma peça de moda: preparado para ser mostrado, fotografado e, às vezes, deixado de lado depois da foto perfeita.

O desperdício, nesse contexto, vira gesto simbólico. Jogar fora o que é caro é, silenciosamente, dizer “posso me dar a esse luxo”. Não à toa, grifes como a Prada abriram cafés próprios, transformando o simples ato de tomar um espresso em ritual de estilo e pertencimento.

A comida, antes necessidade, tornou-se acessório de imagem. Campanhas de moda exploram esse novo fetiche visual, misturando o apetite com o desejo de consumo. Em uma das imagens mais comentadas dos últimos tempos, Hailey Bieber aparece derrubando comida no chão em campanha para a Fila — uma provocação que expõe, sem pudor, o quanto o desperdício pode ser estetizado quando carrega o selo do luxo. Nesse cenário, o alimento deixa de nutrir corpos para alimentar narrativas de exclusividade.

O luxo continua mudando, mas mantém uma constante, pois sempre foi sobre diferenciação
O luxo continua mudando, mas mantém uma constante, pois sempre foi sobre diferenciação – Foto: Divulgação/Floripa.LGBT

O luxo, portanto, continua mudando, mas mantém uma constante: sempre foi sobre diferenciação. Hoje, o que separa quem “pode” de quem “não pode” não é mais o diamante, e sim a liberdade. O luxo não é o que se possui, e sim o que se pode desperdiçar. O corpo virou vitrine, o bem-estar virou marca, e a moda fitness, paradoxalmente, a forma mais sofisticada de dizer: eu tenho o que mais falta ao mundo — tempo.

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